Diário dos mortos


Em Apucarana os Diários Oficiais do município foram enterrados com os defuntos. Os funcionários da funerária admitiram que a prática era comum. O jornal era usado para acomodar os cadáveres no caixão. Os mortos levaram consigo as informações que eram para os vivos. Se enterrou as irregularidades, possivelmente porque os mortos não denunciam. Se teme a consciência dos vivos.
O prefeito anterior, acusado de ser o responsável pela prática, não quer falar. Possivelmente, depois da descoberta de seu ato fúnebre preferia estar morto. Ele gostaria de ver o assunto enterrado com os Diários.
O ato é torpe, no mínimo insano, mas pode não ser incomum. Se livrar de provas é para muitos a forma de ver encoberto o lado podre da gestão pública. A maneira como a prática se apresenta denuncia o grau de irregularidade cometida. Impressiona ter como fato que o responsável pelo enterro dos Diários Oficiais tenha sido escolhido pelo voto. Uma distância imensa entre o que se apresenta como candidato e as práticas no exercício do poder.
Se o fato de enterrar Diários Oficiais estivesse em uma obra de ficção, na novela "O Bem Amado", de Dias Gomes, a cena me faria rir. Na vida real coloca a cidadania no centro do picadeiro. Se há gargalhadas para alguns me sinto mergulhado em tristeza como cidadão. O "enterro" dos Diários Oficiais" é o sepultamento da ética e a condenação da vida pública ao prazer de uma tirania alucinada. Porém, por mais que ir além do limite pode alguma ter lógica, a prática utilizada pelo ex-prefeito de Apucarana beira a insanidade.

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