Minhas três partes

Nada temo, sou pai. Eles estão sempre ali, na minha frente. Seja a imagem real, aquela que meus olhos miram e as mãos podem tocar, ou aquela realidade que repousa em meu coração e da sentido a minha vida única em três atos, meus filhos. Cada um em seu momento construíram os três melhores capítulos da minha existência que se eternizará em suas vidas.
O meu primeiro amor me veio ainda jovem, ainda no tempo em que fraudas se lavava e não se descartava. Quando o trabalho de digitar textos e provas ainda eram na máquina-de-datilografia. Quando lá vinha aquela moreninha linda sentar no meu colo e colocar os dedos na tecla e bagunçar um trabalho demorado que se perdia em risos. Não me incomodava, deixava, aquilo que fazia era por ela, para que evitar refazer o trabalho se o amor eterno resolveu destruí-lo para se divertir, sorria.
O meu segundo amor veio pulando. Saiu da barrida da mãe fazendo "estrelinha". Não tinha quem contivesse a rapidez da menina com jeito de moleque. Não ganhava boneca, tinha "Homem-aranha", "Batman" e "Superman". Com a primeira bicicleta não teve tempo para gastar as rodinhas, foi se equilibrando e de repente já era dona do destino. Brigo com seu silêncio, mas quando sorri e da um beijo, todas as palavras do dicionário ficam pequenas, estava dito: "te amo!".
E, por fim, quando o coração estava tomado pelas meninas, me veio o rapaz. Este cara que nasceu com olhar de que tudo podia. Porque, desde cedo, sabe dizer o que é o amor. As vezes, aqui no meu canto, no silêncio do pai que olha admirando, eu acredito que este "moleque" leu romances e aprendeu palavras doces no ventre da mãe. Se o romantismo perdurar, terei que colocar uma linha telefônica no quarto e distribuir senha no portão. Ele sabe usar as palavras.
Eles vão em frente, cada um com seu jeito, cada um no seu mundo, e eu inundado por eles. Se há um lugar em que possa me dividir em três, será no coração destas vidas. Quando me for, ainda assim estarei no pensamento reflexivo de Raquel, nos gestos de mil palavras de Gabriela e no romance eterno de Felipe. Vou viver para sempre, sou opai.


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