Vícios de "dois pesos e falta de justiça"


As relações que estabelecemos, quando perpetuadas por muito tempo, geram vícios, isto é comum. Algumas se naturalizam e aparentam ser uma prática que se transforma em identidade social. A relação entre os brasileiros e o Estado é uma delas. Um ato de desconfiança mútua que quase sempre envolve punição excessiva, injustiça social e corrupção de lado a lado. Não acredito no discurso da inocência dos dois lados, muito menos que a sonegação, por exemplo, é uma culpa do sonegador. O poder público também sonega e é omisso.
Claro que, quando falo de poder público, falo de uma entidade ocupada por seres humanos que refletem a sociedade. O Estado está encharcado de seres sociais corruptos e corrompido. Não podemos considerar que os gestores públicos são alienígenas, é retroalimentado por esta relação doentia que faz da administração pública um entrave para a vida social.
Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo demonstra que 82% dos brasileiros reconhecem que é fácil burlar a justiça. Na mesma pesquisa, um dado interessante, os com melhor renda e qualificação são os que menos temem a lei, já os que têm menor renda e qualificação há respeitam mais. Por que será?
A resposta é simples, o conhecimento da lei permite desviar seu curso, se aproveitar das brechas, e se favorecer com elas. Os que têm menos renda e escolaridade temem a polícia, os que têm mais, temem o juiz. A autoridade está relacionada a proporção que a punição pode atingir. Não é por acaso que a visita na periferia é uma demonstração de abuso do aparato de segurança. Entrar arrombando a porta com botina e colocar a arma na cabeça de quem quer que seja obedece a uma regra simples, “atira e depois pergunta”. A eficiência é maior e o prejuízo menor.
A influência é uma arma que atua sempre do lado mais forte e arrebenta do lado mais fraco. Uma prática histórica que o país produziu desde a formação do estado colonial, com o Governo Geral (1549) e a manteve com a formação do Estado Nacional (1822). A herança do totalitarismo disfarçado na política dos favores e da injustiça em nome da permanência do poder ainda é um mal enraizado. Por isso, voltamos ao início de nossa conversa, uma prática gera vícios. O tratamento tem que ser intenso e a cada vitória uma comemoração.

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