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Maringá



Peixe nunca pensa na água, nem lhe presta homenagem, por mais que seja ela a fonte vital de sua vida. Considero que é assim também com a cidade onde moramos, já faz parte do seu dia a dia. Somos mais uma engrenagem no corpo da cidade. Estamos lá, dentro dela, circulando em suas veias, servindo de alimento enquanto ela nos alimenta.
Hoje é o dia do ser que faço parte, é aniversário de Maringá. Hoje é 10 de maio, e ela faz 66 anos. Engraçado, quem chega nesta idade já está na terceira, mas o tempo das cidades é outro, e ela será jovem ainda por muitos anos. As outras, as que fazem parte desta gente de núcleos urbanos, no Brasil nação latina, há algumas com mais de 400. As mais velhas são litorâneas, a jovem que habito é destas que veio depois, é do interior.
Este corpo urbano é tão diferente que nasceu riscado em prancheta antes de ser plantada na terra. Lembro-me da obra de Renato Leão Rego que fala da cidade planejada, da “cidade jardim”. E se você buscar na memória, Maringá teve “jardineiro”, Anibal Bianchini da Rocha, se não me engano, faleceu em 2007.
Nas voltas e traços desta cidade, há enganos e desenganos. Ela é migrante, é cidade de gente que se desloca. Aqui o nativo é sempre filho ou neto do que não é daqui. Maringá é local de encontro e desencontros, aqui se fez muitos sonhos, alguns se desmancharem. Quantos não deixaram alguém chorando para vir para cá; quantos não saíram daqui chorando sem querer partir.
Porém, teve os que deram certo e insistem em fazem de seu destino história. Mas quem tem senso sabe que não se resume um lugar de tantos em um mesmo destino. Não se generaliza as diferenças na harmonia. Não se força a felicidade que custou o preço do sentimento oposto para outros. Maringá é isto, é o bem e o mal, é o certo e o errado, o honesto e o desonesto, o feio e o bonito, por mais que no jardim do condomínio se procura evitar a desarmonia em todos os lados.
Gosto de Maringá assim, “a cidade”. A cebola, como diz Raquel Rolnik, urbanista e escritora. Nas ruas estão marcados os tempos da cidade. Se tentarmos encobri-los, passaremos a ser um belo sem nada a dizer. Prefiro assim, Maringá, cheia de contradições, de marcas de enganos e desenganos, mas também do que deu certo. Por fim, humana.



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