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Entre a razão e a fé



O marxismo é uma religião ou uma concepção metodológica? Respeito muito os que conseguem executar a segunda e não se deixar levar a comodidade da primeira. Afinal, é fácil considerar que o que move a vida humana é uma luta entre “bandidos” e “mocinhos”.
Mesmo não sendo um adepto da causa da “luta de classes”, tenho os meus respeitos para os que sabem fazer uma leitura coerente do filósofo alemão que fundou as bases do socialismo científico, da proposta de estado que não tenho qualquer simpatia.
Uma leitura econômica fundada nas teses de Marx sobre o desenvolvimento dos meios de produção como condição de sobrevivência do capitalismo é uma leitura obrigatória em qualquer academia.
Ter a capacidade de entender como a liberdade foi um pré-requisito para garantir a inclusão da classe operária na condição dos bens que produz e consome é outro postulado fundamental. Porém, acreditar que a luta de classes inocenta a inércia das classes populares eu considero uma crença indefensável.
O materialismo histórico foi constituído em seu tempo por um olhar atento e instigante sobre as relações de produção que se desenhavam após a organização da maquinofatura em diversas nações da Europa e também nos Estados Unidos. Marx viu e refletiu sobre uma classe operária que de forma maciça se deslocava dos ambientes insalubres dos bairros operários para as fábricas e depois faziam o caminho inverso.
Os iguais se relacionavam e viviam a condição de operários nas linhas de produção. Ser operário era estabelecido pelo sentido de praticamente todas as relações que constituíam a vida social do trabalhador. Viver e conviver com trabalhador em todos os lugares que frequento. Saborear o alimento e cheirar ao suor que o trabalho propiciou. A consciência operária era efetivamente uma consequência de estar vivo e viver. Mas tudo isto mudou.
A estética do trabalho, a referência ao outro, a condição de consumo, a ambientação das cidades, dos bairros, da casa, dos objetos de desejo que invadem os lugares onde estou. A mundialização da economia e a integração de uma rede de produção que sobrevive das divergências regionais e as desigualdades que à expressam. O capitalismo foi além da fábrica e de vida operária, lhe deu outro sentido, lhe deu outra forma.
Diante disso, acredito que as teses marxistas ainda merecem respeito, desde que não queiram resumir o mundo entre “os bons proletários” e os “maus burgueses”. Nesta luta sem fim entre os que merecem o “céu comunista” e os que estarão condenados ao inferno da ganância capitalista. Isto não seria razão científica, mas sim uma ética religiosa.

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