As aparências enganam, ou não?


É diante do espelho que o Brasil descobre suas origens. Por mais que ao longo do discurso oficial de nossa formação se negue. Somos a mistura, somos o encontro, somos a miscigenação. Resistências existem a esta certeza, mas nossa pele e nossos hábitos denunciam de onde viemos, da maravilhosa mistura e impureza mais "pura".
O Brasil é tido como um país aberto às diferenças. E deveria ser mesmo. Nós somos o fruto das migrações e dos encontros. Nossa formação enquanto povo é marcado pela miscigenação. Somos mulatos, caboclos, mamelucos, enfim, somos a mistura como regra. Entre nós a pureza é exceção.
O convívio com a diversidade formadora nunca foi tranquila. Miscigena-se, se pratica a sexualidade intensa entre os povos que nos deram origem, mas na retórica oficial a busca pelo branqueamento foi constante. A ironia é que a nossa formação nega esta busca de ser uma extensão da Europa. Os modelos importados sempre tropeçaram no que somos como história e negam o que idealizamos ser. Somos afro-indígenas tanto quanto, ou em alguns casos mais, que a busca branca lusitana.
Somos, por exemplo, o país mais afro fora da África. Temos a maior população negra do mundo fora do continente africano. Mais que isso, somos marcados em nossa formação pelos elementos africanos na alimentação, na música, na linguagem, nos hábitos culturais, até mesmo religiosos. No banco das escolas negamos tudo isso e de forma autoritária se nega. Pior, se desconhece. Grande parte dos que educam sabem sobre a história da africana que nos contamina.
Não eram as índias pervertidas sexualmente, mas a mente do branco lusitano maliciosa por ter uma sexualidade mal resolvida... para ouvir mais, clique aqui.
Somos indígenas em nossa formação, alimentação, também na linguagem. Menos talvez, mas foi com os nativos que os europeus colonizadores tiveram o primeiro contato. Encontro carregado de sensualidade de onde nasceram os primeiros brasileiros miscigenados. Lembrando sempre, que a sexualidade não era associada à maldade pelo indígena e sim pelo branco europeu. O português desejoso e frustrado por sua vida de sexualidade moralizada pelo pecado, se apropria da indígena para realizar seus desejos.  Se os indígenas eram resolvidos sexualmente, o elemento lusitano não.
Não por acaso a mulher sexualmente ativa é vista como uma “prostituta” pecadora, por mais que tenha sempre quem a queira desfrutar. Quase sempre os mesmos que não a levam a sério e a condenam. Negamos nossa formação. Muitos miscigenados, retrato fiel de nossa formação, se branqueiam no discurso e buscam esquecer o passado. Como um capitão do mato, quase sempre mulato, filho do senhor com escrava, espancavam os negros para se associar com o castigo aplicado ao senhor, seu pai, que também o rejeitava. Tem muito disso ainda hoje.
Porém e inegavelmente, somos um encontro. Migrantes fizeram o Brasil, suas diferenças fizeram a estampa de retalhos multicultural. Podemos buscar negar nossa origem, podemos assumir discursos autoritários de branqueamento que discriminam a verdade sobre nossa formação. Porém, ao final e no final, será impossível deixar de reconhecer em frente ao espelho os detalhes dos encontros estampado em nossa pele e em nossos hábitos.

Gilson Aguiar comenta a formação do Brasil e a miscigenação

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