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A miséria tem seu preço


Somos o que o passado nos fez e o quanto, no presente, percebemos o futuro. Viver é saber que algo nos antecede e nossos atos precedem como consequência uma resposta. O amanhã virá. O presente é um futuro que chegou.
Quanto custa a miséria? Nossa história pode nos dar uma possibilidade de cálculo. Nossa organização econômica gerou ao longo do tempo um passivo social imenso. A formação econômica iniciada na colonização escravocrata se estendeu o bastante, mais em qualquer outro país, para no futuro manter uma imensa massa humana a margem de qualquer adequação econômica.
Quando o trabalho compulsório acabou, mais pela inanição do que pela revolta social com a violência estabelecida, o futuro já estava demasiadamente comprometido. Para piorar, a forma como se rompeu a escravidão deixou um preço difícil de ser pago. E não estou aqui falando da dívida com o afrodescendente. Estou falando de uma dívida social, com o futuro.
O processo abolicionista foi lento o bastante para não atrapalhar a expansão agrícola em andamento. Em especial a produção de café. Ela foi restrita o bastante para não ser fundada em uma política de integração. A abolição foi gradual por não deixar traumas para os empresários que tinha investido em meados doSéculo XIX imensas quantias na compra de trabalhadores.
Nossa desigualdade econômica, nossos principais problemas, tem origem. Resta saber se temos consciência de que o presente é um "futuro" que chegou.
Os debates em torno da abolição apontavam soluções mais eficientes. Uma política de qualificação do trabalhador nacional. A valorização de uma política agrária de expansão com a presença de homens livres. O que os norte-americanos fizeram em muitas de suas terras do Oeste. O Homestead Act (1862) permitiu a ocupação de uma imensa quantidade áreas produtivas por migrantes internos e externos nos Estados Unidos da América.
Aqui, a empresa agrícola de grande porte, fundada na extensão da terra como sinônimo de produtividade, lógica caduca para o agronegócio na atualidade, imperou. Fazer a terra ficar cara para impedir a posse de minifúndios e incentivo a indústria, a produção nacional. Impedir a expansão de comunidade menores que incentivassem a formação de um mercado interno promissor como novas alternativas de trabalho e, por consequência, uma qualificação profissional. Tudo o que amenizaria o passivo social do trabalho escravo.
A urbanização rápida e desordenada do país no Século XX, para ser mais exato, em 50 anos, foi resultado da modernização do campo e o atraso humano concentrado nas periferias urbanas. Vale lembrar que, atraso humano é a desqualificação de grande parte da força de trabalho brasileira. O qual tem hoje 24% da produtividade do trabalhador norte-americano. Hoje o país tem mais de 85% da sua população nas cidades. O mesmo que tem uma das maiores áreas produtivas do mundo.
Parte considerável desta população vivendo em periferias e com má qualificação é a fonte da miséria e dos problemas estabelecidos ao longo da história. As manchetes de violência retratam, via de regra, a sociedade marginal. Oriunda deste ambiente sem planejamento do caos urbano. É o passivo social que comentamos no início deste texto.

Gilson Aguiar comenta a herança da desigualdade brasileira.

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