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O passivo social I


As marcas de nossa formação ainda pulsa em nossa vida social. Perceptível a poucos, infelizmente. Mas aos mais atentos percebe os riscos traçados em nossa formação que contornam parte considerável de nossos problemas na atualidade.
O Brasil tem um passivo social, intenso e extenso, como foi a escravidão que o gerou. A organização da empresa colonial portuguesa se fez bem-sucedida com a economia agrária açucareira, assim como nos desdobramentos das atividades que deram sentido a economia mercantilista que gerou a colônia portuguesa.
A escravidão, força de trabalho determinante para o sucesso da empresa colonial, estabelecida nas primeiras décadas de colonização, se consolidou no território. Intensa pela contribuição singular da formação social com a miscigenação do africano com o europeu e, também, o indígena. A proporção da mistura contribuiu para a formação de uma sociedade fundada na diversidade, na multiculturalidade e, mesmo para alguns, na multirracialidade.
Nossas heranças desta formação estão presentes em todos os cantos, nos gestos, na alimentação, na cultura. Seja na música, na estética, no colorido das roupas, nas festas regionais. Há na mistura o elemento mais importante de formação do que somos. Os nossos quistos culturais e “étnicos” construídos em cantos do Sul, principalmente, são também singulares. São sociedades congeladas por um ambiente de diversidade que as gerou.
A escravidão foi o resultado de um tráfico de pessoas que se deu em volume extenso. São mais de meio milhão de pessoas que atravessaram forçados o Atlântico para serem escravizados. O Brasil foi o maior importador de almas de todas as Américas. O maior país afro fora da África.
A escravidão se consolidou ao longo de mais de três séculos. Se tornou o modelo de trabalho produtivo. Mas também gerou um conceito negativo de trabalhar como condição de ascensão e valor social. O não trabalho se associou ao bem-estar, a posse explica a riqueza sem o trabalho que a gera. O trabalhador faz parte dos bens do que detém a propriedade.
Uma aristocracia agrária, porque não dizer, uma oligarquia, se formou nas diversas regiões do Brasil. Com seu poder de dimensões distintas. Alguns senhores de terras poderosos e impondo-se sobre a vida de muitos. Em outras regiões o senhor se impõe sobre poucos. Mas mesmo e independente da dimensão da sociedade que governa, o senhor de terras é a autoridade mais imediata a manter o poder.
A formação do Estado Nacional Brasileiro seguiu está lógica. Foi o resultado da imposição sobre um território já demarcado e fundada na aliança com suas oligarquias. Se não todas, com a maioria. Em 1808, o regente português, depois monarca coroado nos trópicos, D’João VI funda o Estado que se consolidaria com a independência feita pelo herdeiro de Portugal e governada até quase o final do século XIX pelo seu neto, D’Pedro II.
A coroa portuguesa foi bem-sucedida ao transferir-se para o Brasil na fuga de Napoleão. O “Rei Fujão”, como era acusado D’João, fez sua nação da colônia mais importante de Portugal. E estabeleceu o poder centralizado sobre uma sociedade marcada por uma colcha de retalhos de seus senhores agrários regionais. O monarca costurou as diferenças com acordos de associação entre os interesses do poder central e locais.
Assim nasceu o Brasil. Assim se fez o Estado sobre a sociedade. A qual, ainda hoje, não consegue se ver senhora do seu destino e tomar para si a república representativa. A ignorância condenou o futuro. Ela se mantém. Mas esta é uma outra história, contada em outro momento.
 

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