Somos afros, mas não temos espelho.


Somos afros. Mas não temos espelho em casa para olhar nossa cor de pele e entender que ela está associada a miséria. Pobreza não tem cor, mas escurece. Se associa aos negros e mulatos as mazelas sociais. Contudo, a desigualdade é de renda e não se pode traçar a linha da raça para um preconceito fundado na desigualdade econômica.
O Ministério Público debate a importância das cotas raciais no Brasil. Na legislação federal e estadual a cotas para negros nos concursos públicos. Nas universidades estaduais o tema é polêmico, divide especialista e a população de uma forma geral. No Paraná, poucos municípios tem em sua legislação o estabelecimento das cotas para concursos públicos. Mas, enfim, as cotas são a solução?

O Brasil é o maior país afro fora da África. Uma verdade incontestável. O tráfico de escravos trouxe para o Brasil ultrapassa os 3 milhões ao longo de mais de três séculos. 38% dos afros trazidos para as Américas vieram para o Brasil. Nossa língua portuguesa é contaminada pela africanidade. Nosso sabor à mesa. Nossa música e estética tem um forte tempero africano. Não dá para negar.
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Mais da metade da população brasileira é afrodescendente. Esta também é uma verdade incontestável. Logo, nem todos os afros vivem na miséria. Mas a maioria dos que vivem em condições de risco, os que ganham os menores salários, os que estão mais expostos a violência, os que têm menos representatividade, são afros, são negros. Como entender?

A história da escravidão se mistura com a desigualdade econômica construída ao longo da história. A forma como a sociedade brasileira foi fundada explica a manutenção de uma população empobrecida e com uma pele com cor definida. Não existiu uma ruptura do trabalho escravo que rompesse a miséria que em conjunto com a escravidão se constituiu. Este país é pobre.

Machado de Assis, nossa maior expressão literária era afrodescendente. Além dele, Luiz Gama, que foi vendido pelo pai, aprendeu a escrever aos 13 e é, também, um dos maiores escritores do país. André Rebouças, um dos maiores engenheiros do século XIX, era abolicionista e amigo da família imperial, negro.

Mas que mal aflige a cor? A pobreza. Empobrecer se associou a cor do tanto que a maioria dos pobres é negra ou mulata. Mas ser negro ou mulato não implica em ser pobre. Porém, a probabilidade em um país como o Brasil é maior. Acredito ser isso o que mais nos incomoda.

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