O sonhos de consumir e ser consumido


Como no livro de Patrick Süskind, “O Perfume”, diante de nosso “mau cheiro” o sonho de ser consumido seria a redenção de nossa existência. A procura de ser algo que se deseje intensamente. Porém, como o cheiro dos perfumes, o aroma é uma sensação que pode encantar a realidade. O desejo pelos objetos que temos hoje nos ensina o poder do encanto.
Bom começar falando que 80% do que é produzido neste mundo é consumido por 20% da população. O que é feito por muitos é consumido por poucos. Há um número restrito de pessoas que se deliciam ou tem acesso aos objetos de desejo ou necessidades de todos. Uma possibilidade limitada que é gerada em grande quantidade.

Nesta condição contrária, há uma produção de excedentes que libera para o lixo uma quantidade imensa de resíduos, descartes, restos e a representação dos excessos. Dizem que se pode conhecer o perfil das pessoas pelos restos jogados em seus lixos. Acredito nisso. Somos uma continuidade intensa do que nos apropriamos, compramos, usamos ou, simplesmente, colecionamos. O lixo denuncia nossos desejos e prioridades.

Mas a sociedade que queremos analisar é aquela que não está no lixo, mas em seu oposto, no luxo. Na busca do glamour constante e da busca da felicidade materializada na realização dos desejos que se sucedem intensamente. Necessário ser rápido no sentimento que se refaz e se desfaz no momento posterior ao primeiro encontro. O momento que selamos nossa união com as coisas estamos, de certa forma, dando a condenação ao desejo os seus primeiros passos.

O tempo de vida dos objetos que desejamos são mais curtos que nossa existência. Por sinal, viver e colecionar coisas, intensamente. Sempre substituir o que se tem por algo novo, se renovar no desejo e na aquisição. A sociedade de consumo precisa acelerar nos consumidores, poucos na face da terra, o desejo de consumir cada vez mais. Agora, uma única pessoa consume em bens e serviços mais do que as gerações que a antecederam. Suponho que no guarda-roupa de muitos, dos “bem aventurados” da sociedade de consumo, há mais roupas do que alguém de há 3 gerações sonharia ter. Hoje, um único ser humano consome mais, em quantidade, do que as três últimas gerações.

A principal função da existência é o consumo. O não poder consumidor pode enterrar definitivamente nossa existência em um limbo. É insuportável para muitos não ter acesso ao desejo que faz o sentimento de inclusão social ser completo. Como se apresentar diante do outro sem as condições mínimas da inclusão social. Falamos de raça, credo, cultura, mas se há o que determina a marginalização ou permite a inclusão é a possibilidade acesso a bens e serviços. A lógica do que antes era pública virou privada. Estar não é um direito e sim a consequência da aquisição.

A pedagogia do consumo...

A educação para o consumo é um aprendizado com método eficiente e implantado cada vez mais cedo. As crianças deste ambiente já nascem rodeadas daquilo que devem idolatrar, as coisas. Há sempre um objeto entre elas e as demais pessoas. Será fácil perceber ao longo da existência que o sentimento se traduz na expressão materializada de um possibilidade, produto ou serviço adquirido.

É educativa a lógica da propaganda do cartão de crédito que enfileira os produtos possíveis de serem adquiridos com determinado valor monetário, ao final, sela o acordo da aquisição emocional com amor que não tem preço. Não há o porquê quantificar o amor, o sentimento, o carinho, respeito ou honra, se eles acompanham como um acessório o resultado da aquisição.

Não é um erro temer que ao deixar de poder prover aos seres que nos rodeiam a condição material que lhes agrada, deixar de ser amado. Se nega que o sentimento tem um preço. Pela moral, se condena a prostituição por fazer do sexo uma profissão, um serviço a ser oferecido por um determinado valor. Porém, a lógica de se prostituir se propagou. A intenção rasa da vida, a necessidade constante de viver alimentado por sentimentos imediatos de coisas adquiridas, faz da prostituição uma prática realizada até pelos moralistas de plantão. Há que se elogiar a meretriz por admitir o que quer e deixar claro o porquê se faz. O que não se terá dos que nos rodeiam e se vendem pelo valor imediato das coisas.

Estamos encantados pela possibilidade de frequentar os “paraísos terrenos” antes construídos apenas na imaginação ou nos filmes de ficção. A realidade imita a arte. A fantasia antes exposta no conto de fadas agora se coloca nos ambientes em que se frequenta como se estivéssemos vivendo a fantasia constante. Ninguém gosta de acordar. Se as drogas são condenadas por promoverem a ilusão, tirar os seres humanos da realidade, o que fazemos ao nos iludir com os ambientes que nos cercam, com as aquisições que praticamos?

Mas como não sonhar?

Se a busca dos sonhos é um sentido clássico da vida, nascer rodeados dos bens mágicos é viver sonhando. Esta afirmação é uma realidade para muitos. Para que acordar? Nossas crianças estão impregnadas pela possibilidade de viverem rodeadas de sonhos. O excesso do “Eu”, realizado em seus pequenos desejos, afasta os seres humanos do verdadeiro sentido de existir. A vida longa passa a ser movida pelo correr dos dias. O tempo se conta em migalhas e por elas se avalia o grande banquete de uma vida que não alimenta.

Da infância a adolescência se estimula viver pela medida da coleção dos objetos. Eles não ficam, como falamos se descartam. Em uma vida longa, nada fica. Nós vivemos sempre incompletos e na busca de uma nova aquisição. Os que nos acompanham se percebem e poucos são percebidos como seres que se constroem ao longo do tempo. Todos, ou quase todos, se pudessem seriam eternos para poder sempre ter o novo e nunca envelhecer. Ser velho em meio ao novo é uma tristeza impossível de ser governada por quem nunca soube que o tempo contado pelos dias se soma.

Os ambientes agora pensados se renovam para atender a continuidade dos desejos de quem os frequenta. Lojas, shoppings, hipermercados, ruas e praças são elaborados para nos surpreender sem surpresas desagradáveis. O desejo é único, “quero ser atendido em um desejo sem que tenha que pedir”. Por isso, estudar o consumidor é uma prática constante das grandes empresas especializadas na análise do mercado.  Os lacais planejados e harmônicos nos dão uma sensação de paz. Mas ela é “enlatada”, não se pode esquecer.

O entender o desejo do consumidor tem suas fontes. Ele está expresso em seus diários eletrônicos. Diariamente, inúmeros colocam em suas páginas sociais, em seus aplicativos de mensagens, onde estão, com que estão, do que gostam. Clicam inúmeras vezes a procura de um desejo. Os produtos em massa, com perfil aparente de personalização, encanta o consumidor que relaciona seus desejos intermináveis.

A frustração necessária para aprendizado dos valores necessários e constantes agora é renegada. É um sentimento que seu quer fugir. Ter negado o desejo é algo impensado. O que move a sociedade de consumo é a realização constante da vontade mais ínfima. O desejo superficial é a expressão do nível que o valor que se dá ao sentido da existência. Ter o mínimo, porque não se tem a dimensão do profundo. Esquecemos que são as frustrações que dá o peso maior a vida.


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