Por de trás das coisas


Objetos nos rodeiam. Eles são nossa companhia mais constante. Circulam a nossa volta como se tivessem vontade própria. Talvez tenham. A vontade deixou de ser algo humano, de quem possui o objeto, e passou a ser uma expressão simbólica que acompanha as coisas. Por sinal, estas coisas são, para muitos, a sua melhor parte enquanto seres humanos.
De onde eles vem...
Há uma complexa rede de produção que dá vida as coisas. Criada com eficiência pela capacidade de integração. Uma relação direta de causa e efeito entre unidades produtivas, mercado internacional, potencial geográfico e financeiro aliados ao um desenvolvimento tecnológico intenso.

Condição que rompe as fronteiras nacionais e se impregna nas mais diferentes regiões, de diferentes formas. Não por acaso, há paraísos terrenos e infernos terrestres. Ironicamente eles não estão desligados, apartados. Eles fazem parte de uma mesma rede de produção. Um gera o outro. Como o “Céu” e “Inferno”, que muitos acreditam em sua existência, existem como opostos e fazem parte da mesma lógica.

Após a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) a destruição da Europa refez os ambientes industriais. Empresas mundiais passaram a estabelecer unidades em países tipicamente agrários ou extratores, fornecedores de matéria prima. A história brasileira é um dos melhores exemplos desta mudança do tipicamente agrário para o agrário-industrial. Não por acaso, o pequeno surto de produção maquinofatureiro assistido no país a partir do final do Século XIX cresceu assustadora mente em meados do Século XX.

Investir em novas áreas de produção na busca de aproveitar os custos baixos com mão de obra disponível. Está foi a lógica do capital multinacional. Além disso, uma infraestrutura estabelecida por governos, em sua maioria autoritários, nas nações agrárias. Parte destas nações são resultado do colonialismo promovido pela própria Europa. Parido pela economia mundial. Países, como o Brasil, nunca conseguiram estabelecer vida própria. Sempre na esteira das mudanças do capital. Sem aproveitar suas oportunidades, dá o que pedem sem ter vontade própria.

O estabelecimento desta rede de produção multinacional, com unidades produtores nos países antes agrários, gerou uma euforia. Muitos países que antes tinham crescimentos medíocres viveram o chamado “milagre econômico”. Nestas nações, parte da população passou a sentir mudanças consideráveis em seu cotidiano, êxodo rural. A vida na cidade, o acesso aos ambientes de consumo, a dinâmica social da vida capitalista chegou de forma abrupta e intensa. O choque entre gerações virou debate nestas nações. Motivado, principalmente, pela ruptura do ambiente agrário para o urbano para um grande número de pessoas.

As primeiras décadas do capital multinacional foi de proliferação de bens de consumo para uma sociedade carente de objetos que satisfazem suas necessidades práticas. O telefone, a batedeira de bolo, o liquidificador, o rádio, o televisor, mais tarde o micro-ondas são exemplos dos bens que se proliferaram na casa de muitos. Alteraram seus cotidianos, mas inegavelmente tinham função prática. Cumpriram uma necessidade real da vida. Os primeiros benefícios trazidos pelas empresas mundiais e suas marcas, que aos poucos se faziam conhecer, foram práticos, funcionais.

Sua produção ainda centralizava parte considerável de componentes nos países desenvolvidos, que, aos poucos, foram transferidos para as nações periféricas. Nestas, a montagem do objeto industrial movimentou outras unidades. Fabricantes de componentes próximos a unidade montadora, seguiram o padrão exigido pela empresa mundial. Fabricar deixou de ser uma invenção independente de um produto para ser a execução do pré-determinado. Se deixa de ser criador para ser reprodutor. No capitalismo, a morte da criação e a reprodução são sinais de extrema dependência.

Contudo, as empresas multinacionais até meados dos anos de 1970 foram responsáveis diretas pela instalação e manutenção da rede de produção internacional que geraram. A marca da empresa estava em parte considerável das etapas instaladas. Os funcionários que produziam as partes essenciais de seus produtos tinham em seus uniformes o emblema da empresa. O trabalho precisava ser identificado com a empresa que o gerava. A produção dos bens estava associada ao ato de trabalhar. Produzir ainda era o sentido de viver.

Como se transformaram as coisas...

A rede mundial de produção, a dita “Fábrica Mundial”, é o aperfeiçoamento da produção mundial de bens. A divisão complexa, ampla e integrada das condições de produção de bens. Muitos deles com alto agregado tecnológico. A separação intensa entre as áreas de produção técnica e de controle financeiro das condições de produção. Fabricar não tem relação direta, territorial, objetiva com o desenvolvimento tecnológico dos produtos.

A elaboração de elementos técnicos complexos da produção, sua tecnologia avançada, não estão ligadas, mesmo juridicamente, com as unidades produtoras. Tanto aquelas que produzem matéria prima como as que produzem os componentes que vão nos produtos. Agora, é possível massificar a produção, ampliá-la, sem ter que envolver a empresa que gerencia a existência do produto como do símbolo que a acompanha.

Nike não tem fábrica de artigos esportivos. Porém, é uma das maiores fabricantes mundial destes produtos. Como isso pode acontecer? Ela contrata unidades produtores terceirizadas, compra a produção, mas não se envolve com as relações de trabalho que geram os produtos. Contudo, a empresa norte-americana, Nike, controla toda a produção dando os moldes técnicos e os critérios de produção de seus produtos.

As condições de trabalho em muitas destas empresas que geram produtos para empresas mundiais são questionados. Eles são considerados violentos, extremos, desumanos. Porém, no lugares onde estas unidades se instalam, esta é a condição de sobrevivência de pessoas que estão na linha de risco da miséria. A Índia é talvez um dos maiores exemplos. Trabalhos de 12 a 14 horas diárias, em ambientes insalubres, fabricando marcas famosas de roupas italianas, por exemplo.

Esta condição tende a se multiplicar. Nas regiões próximas das mais diferentes nações do mundo. Em regiões das mais diversas, os produtos a serem confeccionados, a matéria prima a ser extraída, é obtida nas condições que os lugares, por mais afastados que sejam, podem oferecer. É desta forma que se integra a produção planetária.

No prato do restaurante requintado de Nova York, com uma produção elaborada por um grande chefe de cozinha, está a baunilha extraída na África em uma região pobre. O extrator encontra a sobrevivência na possibilidade excessiva no alimento de luxo no maior centro financeiro do mundo.

A miséria regional é um ambiente que pode oferecer vantagens para a fabricação de produtos mundiais. A informalidade, as relações de produção consideradas excessivas, a possibilidade de uma matéria prima, acabam por favorecer esta rede de produção. Mas, a questão de que, se a rede é desigual, seria possível outra forma de produção se estar integrado esta condição que a Fábrica Mundial gera.



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