Trabalho e a crise de identidade


Nascer para trabalhar. A busca por uma identidade na vida já repousou na atividade profissional. Ser o que o labor te faz. “O que faz na vida?”, a pergunta que se respondia com a profissão. Seja ela qual fosse, era a identidade do ser trabalhador. O significado maior do trabalho sempre foi a dignidade associada a sua existência. Crescer, amadurecer, era ter um trabalho.
Para alguns, mais velhos de certo, ou conservadores raros, o pedido da mão da moça em casamento para o pai atencioso, quase sempre vinha com a pergunta crucial, na qual se separava a possibilidade do “sim” e da certeza do “não”, “Você trabalha?” ou “Como irá sustentar minha filha?”. Claro, estes são outros tempos. Mas lá, na sociedade patriarcal, marcada pela figura do homem provedor e “autoritário”, muitas vezes, trabalhar libertava e gerava respeito.
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Naqueles tempos, não muito distantes, não haveria como pensar no futuro sem trabalho. Romper com a vida de submissão aos pais, desejar ter sua liberdade, construir seu destino, era necessário ter como se sustentar. Trabalhar era a saída, a porta para a liberdade. Era fundamentalmente ter capacidade de sustentar a própria vida para posteriormente saciar o desejo mais ínfimo ao ato mais decisivo. A tudo se entendia pelo trabalho.

Nas grandes teses das ciências humanas, os grandes pensadores políticos e sociais clássicos, ideológicos e lógicos, criticados ou admirados, Marx, Weber e Durkheim, tem no trabalho um elemento central de seus pensamentos. Para Émile Durkheim, por exemplo, as corporações de ofício, a profissão e seu corpo de trabalhadores são a mais importante condição de solidariedade social. É nela que se deveria valorizar a vida da coletividade e a orientação ética para a coesão social.
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Hoje é o Dia do Trabalho, Dia do Trabalhador, mas o que isso significa? Por um lado, o trabalho continua vital para o entendimento da vida social. Ainda é o elemento importante para a manutenção da nossa existência e da coletividade em que vivemos. Mas ele já não repousa na racionalidade dos indivíduos como uma necessidade para a liberdade. Já não é o trabalho a principal condição de mover-se dentro das relações sociais.

Para muitos, se perdeu o ritual de maturidade que a ingressão no mundo do trabalho permitia. Agora, a infantilidade de muitos adultos faz brotar o raciocínio da criança e a vontade pueril. Os atos estéticos da maturidade desacompanha a valorização e a necessidade de trabalhar para se ter respeito e pagar a conta de seus atos. Propagamos o direito a fantasia de ser adulto sem que implique no auto sustento financeiro.

Tenho saudade do tempo em que nada poderia ser mais caro ao indivíduo do que a liberdade. E nada poderia ser mais digno a este direito do que trabalhar. Agora, assistimos a negação do trabalho como condição prévia de se reivindicar o direito de ser respeitado e livre. Estamos mais preocupados com os bens que enganam as aparências do sucesso, do que o árduo caminho da vitória real e digna que a vida da profissão e do trabalho constrói.

Assistimos a muitos jovens desejarem a “prisão” de suas casas paternas, como o falso ou imediato discurso da proteção para não perder o conforto que a renda de papi e mami pode promover. A chamada geração “canguru”, cuja a uma vida paga com seus próprios recursos seria insuportável. Para estes, sair do conforto, da aparência estética dos objetos de consumo, é insuportável. Vale, para eles, a limitação infantil do berço onde nasceram a terem que amadurecer enfrentando a realidade de seus limites.

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