A cumplicidade da Violência


Olhamos para os problemas e as ameaças de nossas vidas colocando-as fora de nosso ambiente doméstico. Sempre consideramos que o mal vem de fora e o bem mora conosco. Será? Há violência entre os íntimos. E esta, quando se revela, nos pega desprotegidos, muitas vezes é fatal.
Uma mulher de 40 anos foi assassinada pelo namorado, em Paiçandu, Luzinete Matias. Seu corpo foi encontrado depois de 10 dias de desaparecimento. O namorado foi ouvido pela polícia quando Luzinete estava desaparecida, mas depois da descoberta do corpo, o assassino está foragido. Infelizmente, este caso não é incomum.

Em São Vicente, no Estado de São Paulo, uma mulher e suas duas filhas, ainda crianças, foram assassinadas pelo parceiro. A mãe do assassino, indignada, e temendo a violência do filho, o denunciou a polícia. Uma mãe que teve a coragem de romper com o silêncio.

No Brasil, segundo dados do Mapa da Violência, sete mulheres são mortas por dia por violência doméstica. 38% dos assassinatos o executor são parceiros ou ex-parceiros. O pior deste ambiente é que o agressor dá sinais durante o relacionamento. Em grande parte, a morte é anunciada.

A violência contra a mulher, se expressa de diversas formas. Pode culminar com o assassinato, mas tem um cotidiano de tortura. O agressor controla o comportamento, faz imposições sexuais, religiosas, ofensas morais, controla dinheiro e documentos pessoais. Algumas tem a vida íntima exposta. Não por acaso a internet é o meio mais comum da exposição da intimidade feminina.
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Cultura machista explica parte desta violência. O país cultua a figura do homem agressivo, provedor e autoritário. Porém, o impositor tem berço. Ele aprende seus excessos em um ambiente onde se estimula e se legitima os abusos. Muitas vezes o culto a autoridade masculina ganha em muitas mulheres a cumplicidade. Se considera o comportamento de imposição, uma demonstração de pulso, força, coragem, poder.

Porém, vale lembrar, que o culto ao machismo é uma via de mão dupla. Não se constrói de forma unilateral. Não é o homem que se coloca no mando e contraria os interesses de suas parceiras. Há uma sedução, há uma aproximação, há a idolatria a supremacia masculina.

Na relação se constrói o sentido do porquê convivemos. Temos que demonstrar a oposição ao machismo no berço. Na construção do sentido do que é a convivência com a diferença sem naturalizar comportamentos que são convenções sociais. Há muita predisposição na forma como uma mulher e um homem podem agir. Mais uma vez, é no ambiente familiar que o bem e o mal se molda. O machismo se combate em casa, não só na figura paterna, mas na materna que muitas vezes é o principal personagem para protagonizar a mudança.


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