Entre nascer e morrer aos poucos


Antes de se discutir o direito à vida é fundamental gerar condições para se viver. Os seres humanos nunca tiveram a disposição tantas maneiras de controlar a concepção. Mas parece que o ato irresponsável de gerar sem planejar caiu nas graças da inocência, virou retórica demagógica.
A Câmara de Deputados da Argentina aprovou o aborto até a 14ª semana de gestação. A medida do país vizinho fez emergir o debate acalorado sobre o tema. O temor que a medida venha a ganhar força e seja aprovada gerou manifestações em diversos ambientes, públicos e privados. No Brasil, uma a cada cinco mulheres já fizeram aborto, entre as que tem até 40 anos. Os dados são da Pesquisa Nacional do Aborto.

O debate, da legalização ou não, requer lucidez. O que muitas vezes quem se posiciona sobre o tema não tem. O aborto é uma prática humana antes de ser um ato de julgamento divino. Nossos males ou benesses nos pertencem. Gostaria de lembrar de outros números, o de que 49% das gestações são indesejadas. Ou seja, metade das mulheres brasileiras não planejaram seus filhos.

Um dado bem conhecido é de que a natalidade é maior na população de baixa renda e que 3 em cada cinco crianças que nascem, duas se encontram em uma família de renda com menos de 3 salários mínimos. Dados do Ministério da Saúde. A revista “Seu Dinheiro”, braço da Exame, aponta que o custo de um ser humano entre o nascimento e o término da faculdade, se tudo der certo, é mais de R$ 2 milhões.

Não quero discutir o aborto, já que isto requer esclarecimento, capacidade de reflexão sobre manter a vida. Nascer deve ser antecipado por um bom ambiente onde se é gerada. O que desejo refletir é sobre os seres humanos que nascem em meio aos ricos. Estes que nós nos referimos nos discursos sobre proteção e amor e, na prática, desprezamos, eliminamos aos poucos.
Para ver e ouvir comentário sobre o tema, clique aqui.
Se fala tanto do amor, da luta pela vida. Se exalta a defesa da integridade do feto. Porém, a prática é de desafeto. Violência física e moral contra a criança. A irresponsabilidade de quem gerou é encoberta pela oratória da proteção. Por que se discute tanto o aborto? O que devemos discutir é os atos de proliferação irresponsável com tantos anticonceptivos distribuídos pelo poder público, com tanta informação disponível para se evitar uma concepção indesejada.

Diante da irresponsabilidade dos atos na reprodução, consideramos humano dar a vida a quem viverá em risco ou acusado eternamente de não ser bem-vindo. Por favor, antes de discutirmos a taxa de natalidade ou o aborto no país, vamos olhar mais para os números. Eles colaboram para um debate lúcido, do que realmente somos carentes. Devemos abortar a representação pública rasa. Esta sim nos faz mal.

Comentários