Futebol: lucro ou prejuízo


Estamos em tempo de Copa do Mundo. O país se identifica e reage ao espetáculo. A economia sente e ressente. Mas a transformação do esporte em um grande negócio atrai e envolve até mesmo quem não gosta. Porém, é preciso entender a lógica para não limitar o olhar, tanto sobre o jogo como sobre o "negócio".

Um levantamento feito pelo Impacto do Consumo no Varejo (ICVA) mostra uma queda média de 24,7% do comércio no varejo nos horários de jogos do Brasil na Copa do Mundo. O levantamento é feito pela base de análise da Cielo, empresa que administra cartões de crédito. Quando se fala, por exemplo, de alimentos e bares, a queda é de 35,4%. Mas se analisarmos o setor de vestuário, a redução do movimento ultrapassa os 57%,

Os brasileiros também deixam de frequentar os postos de saúde. O movimento nas unidades de pronto atendimento tem queda aparente, não se tem dados tão precisos, mas a impressão é esta. Há quem poste fotos, nas rede sociais, das unidades de atendimento sem movimento na hora do jogo. Será que reduz também os assaltos, tanto a pessoas, como a estabelecimentos comerciais?

O que sabemos é que escolas e empresas dos mais diversos ramos, reorganizam seus horários. Algumas fecham as portas. Em várias delas tem até bolão. O qual tem aplicativo especializado para baixar no celular e fazer do evento esportivo uma aposta. No Brasil, o futebol tem sua história.

O esporte nasceu como uma prática de elite. Jogado pelos filhos dos aristocratas no final do Século XIX e início do Século XX. Charles Miller, inglês, é tido como o primeiro a apresentar aos brasileiros uma bola de futebol. E foi nos campos dos clubes de alta renda que tudo começou. Para os pobres, afrodescendentes, em sua maioria, restava assistir, quando podiam, ou, se quisessem, teriam que inventar a bola e jogar na várzea. Inclusive, até hoje, é daí que surgiram muitos craques. Porém, somente a partir da década de 1920 que os negros e mulatos passaram a poder fazer parte das equipes oficiais de futebol.
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Na década de 1930 o esporte ganhou a profissionalização. O pai do nacionalismo de estado, o golpista Getúlio Vargas, enfiando goela à baixo tudo o que podia para se perpetuar no poder, viu na popularização do futebol, assim como do Carnaval, uma forma de associar o estado ao povo. Estádios foram construídos com recursos públicos, uma liga nacional foi criada (1933). Antes disso o país participou da primeira Copa do Mundo de Futebol no Uruguai (1930).
O presidente usava a lógica de técnico de futebol para governar. Acabou preso. Ninguém cogita a prisão de outro “Luiz”, o Scolari, que perdeu de 7 a 1 para a Alemanha. Porém, parte dos brasileiros quer a volta do petista, nenhum deseja o retorno do ex-técnico.
O esporte pegou, alavancou e fez com que o estado investisse em uma Copa do Mundo, em 1950, construindo o maior estádio da época, o Maracanã. O estado divulgou e se beneficiou da construção e propagação da ideia de ser o Brasil o país do futebol. Presidentes se associaram a bola, aos gramados, aos jogadores. O presidente Emílio Garrastazu Médici, no auge da Ditadura Militar, não tirava o radinho do ouvido. No mesmo dia que autorizou torturas, também comemorou a conquista da Copa do Mundo de 1970.

Política e futebol geraram frutos. Não por acaso, jogadores viraram políticos. Romário talvez seja hoje o melhor exemplo. Pelé já foi cogitado a presidente. Lula e seu Corinthians renderam popularidade e uma obra faraônica em forma de estádio de futebol para a realização de uma nova Copa do Mundo no Brasil, em 2014. O ex-presidente usava em sua retórica a lógica dos técnicos de futebol para justificar os atos de governar. Acabou preso. Ninguém cogita a prisão de outro “Luiz”, o Scolari, que perdeu de 7 a 1 para a Alemanha. Porém, parte dos brasileiros quer a volta do petista, nenhum deseja o retorno do ex-técnico.

Mas em muitos países a história não é tão diferente. O futebol também se confunde com a pátria. Mais que isso, acaba por se tornar um grande investimento e empreendimento. As Copas do Mundo já atraíam recursos significativos antes da transmissão via satélite. Depois dela, o futebol se tornou um espetáculo internacional. Empresas mundiais investem no evento e obtém retorno significativo com a associação de seus produtos aos jogadores e clubes. É o espetáculo publicitário nos estádios, nas cidades e nos país. O negócio é bom e rende muito.
Os craques, os grandes jogadores de futebol, e seus salários astronômicos são sempre um objeto de crítica. Contudo, devem ser pensados na proporção em que geram lucro para as empresas e empreendimentos envolvidos. Na sociedade de mercado não há “almoço grátis”. Se o jogador ganha é porque rende e se ganha muito é porque rende muito mais para os negócios.

Um bom exemplo de ambiente de lucro são os meios de comunicação. As emissoras de rádio e TV passaram a ter no futebol uma fonte milionária de renda. Hoje, a internet disputa este espaço. Muitos assistem às partidas e acompanham seus clubes e ídolos pelo dispositivo móvel. Logo, se consideramos o futebol um mal, é um mal para quem? Há mais riqueza sendo movimentada na espetacularização do esporte do que na crítica de sua idolatria como um “ópio do povo”. Logo, é preciso um olhar mais atento ao evento e suas aparências e essências. É melhor deixar a “bola rolar”.

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