A democracia precisa envelhecer



Desejamos mudança e não percebemos que é a permanência da democracia, das instituições representativas, das leis, do estado democrático de direito, que fará a diferença com o tempo. Quando mais as instituições amadurecem elas garante as mudanças seguras e estáveis.
Nossa democracia é jovem, mas já nasceu e morreu tantas vezes. Tão pouco durou como surgiu. Poderíamos ter dado mais tempo a aquelas que surgiram, mesmo que de forma autoritária. Lembram-se quando o filho do rei de Portugal herdou pai, mesmo que com gritos às margens do Ipiranga, em 1822, o trono. Falou de liberalismo, mas se sustentou ao longo dos nove anos de governo em uma escravidão. O filho, D’Pedro II, tocou a monarquia em frente, a fez longa, como a escravidão que nos deu um passivo social sem precedentes, que arrasta seus filhos para fundo do posso social.

A república, proclamada pela farda, ao golpe, sem povo, sem liberdade, sem representatividade. Aquela que foi construída depois pelo civismo das togas dos juristas ilustres e mantida pelas botas do coronéis aristocratas, poderia ter permanecido, teria se ampliado sem romper a sequência. Mesmo que de eleições de cabresto e currais, ela poderia ter chegado até nós. Mas o golpe do “padrasto dos pobres”, da miséria autoritária e latina getulista, da falsa modernidade autoritária, nos fez regredir mais uma vez.
Caminhava, poderia ter sobrevivido, poderia ter feito 70 anos, mas morreu jovem, com 20. 
Nem mesmo aquela república construída do populismo personalista após 1946 sobreviveu muito tempo. Representativa, desenvolvimentista, manipuladora da miséria, mas era, bem o mal, uma representação. Caminhava, poderia ter sobrevivido, poderia ter feito 70 anos, mas morreu jovem, com 20. Em 1964 fomos golpeados de novo. Mais fardas e batutas autoritárias em nome de preservar uma democracia que se matava sem dó.  

A nossa jovem democracia, inaugurada nos anos de 1980, alguns apontam o fim da Ditadura Militar como começo (1964), outros a Constituição (1988). Independente de que princípio, nossa democracia é jovem. Ela completa agora pouco mais de 30 anos. Será que fará 70 ou 100? Espero que sim. Afinal, o que faz o país melhorar é o hábito de acreditar que a participação vale a pena. Porém, para crer é preciso deixar a democracia envelhecer.

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